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TVTEC Blog com Pedro Fávaro Jr.
25
agosto 2017

Só se exclui do ‘admirável mundo novo’ quem quiser

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Por Sérgio Vaz*

As mudanças acontecem depressa demais, uma novidade atropela a outra, é tudo tão absolutamente vertiginoso que a gente até perde a capacidade de perceber a extensão e a profundidade do que tanto avanço tecnológico significa no dia-a-dia das pessoas.  O admirável mundo novo já chegou e, se a gente não parar de vez em quando por um momento para pensar um pouco, é capaz de nem perceber.

A informação está aí disponível para todos, a toda hora, por todos os meios. Com um celular na mão, qualquer pessoa pode ter acesso a praticamente todo o conhecimento que a humanidade acumulou em dez mil anos de civilização. Bach, Beethoven, Beatles, Michelangelo, Da Vinci, Platão, Shakespeare, Chitãozinho & Chororó e Maiara & Maraísa estão à disposição – grátis. Juntamente com o noticiário do que acabou de acontecer e o último sucesso do grupo da décima-oitava geração do pós-punk inglês lançado ontem.

É até assustador demais que tudo esteja aí grátis, porque informação custa, e custa caro. Para dar uma notícia, um jornal, uma emissora de TV tem que arcar com custos pesados – de material e de pessoal. O repórter tem que receber salário, uai – da mesma maneira que o compositor e o cantor vivem daquilo que produzem.

A internet introduziu no mundo a cultura de que tudo pode ser grátis, e isso é um absurdo. Bagunçou tudo. A humanidade vai ter que rediscutir essa questão da gratuidade da informação, do acesso às obras de arte, aos acervos culturais.

A humanidade tem muita coisa para discutir. O que não falta é tema para ser discutido.

***

Pouco antes de minha filha nascer, tive necessidade de falar com o médico da minha mulher, e então desci do apartamento e fui até a esquina para ligar do orelhão. Havia uma pessoa falando, e tive que esperar. Acho que foi a irritação imensa daquele momento que me fez ir, pouco depois, a uma empresa que existia na Rua 7 de Abril, no Centro de São Paulo, chamada, se não me engano, Bolsa de Telefones, para comprar uma linha telefônica. O preço era bem alto, mas, com cinco anos de jornalismo, naquele tempo uma profissão bem paga, eu tinha o dinheiro para comprar uma linha telefônica na Bolsa.

Naquele tempo, telefone era um bem tão raro que a gente declarava no Imposto de Renda. Isso hoje parece um absurdo, uma piada, uma invenção. É a mais pura verdade dos fatos – e aconteceu no ano em que minha filha nasceu.

Hoje a Vanda, a moça que trabalha aqui em casa três dias por semana, tem 3 telefones celulares, um da TIM, um da Claro, outro da Vivo. Hoje telefone é que nem testa – todo mundo tem. E, exatamente como acontece com a testa, ou o que está atrás dela, cada um faz com seu telefone o que bem entender.

Quando minha filha estava com 2 anos, resolvi comprar uma Encyclopaedia Britannica. 30 volumes de 1.100 páginas cada, o supra-sumo do conhecimento acumulado pela humanidade. Teve colega que me gozou, mas fazer o quê? Eu queria ter uma Britannica, cacete, e comprei. Não me lembro bem, mas creio que fizemos, o vendedor e eu, um plano de pagamento em 3 anos – 36 prestações. A essa altura eu já estava no sétimo ano de Jornal da Tarde, e o salário era bastante razoável. Deu pra pagar.

Lembro que, quando terminei as prestações, alguém fez uma conta e concluiu que eu havia pago pela Britannica o equivalente a um Fusca. Dane-se: eu não sei dirigir mesmo, nunca soube, nunca vou saber.
Adoro enciclopédias, dicionários, guias. Ao longo da vida, fui comprando vários guias de filmes, enciclopédia de rock, enciclopédia da música brasileira, de tudo. As estantes ocupam quase todas as paredes do meu apartamento, e já não há mais lugar para tanto livro, disco, filme.

Pois é. Não exatamente tudo, mas praticamente tudo o que está nos meus livros, discos, filmes está disponível na internet, a alguns toques do dedo – e grátis.

Duas ou três vezes por semana, pego o ônibus que vai do meu bairro para o Centro da cidade, atravessando antes a Avenida Paulista e passando por três estações de integração com o metrô. Moro pertinho do ponto final; entre as 16 e as 18 horas, o ônibus sai cheio de gente que está deixando o trabalho e indo para casa – gente simples, humilde. Todos com seus smartphones à mão. A Wikipedia à mão. Todo o conhecimento acumulado pela humanidade à mão.

O admirável mundo novo está aí. Só se exclui dele quem quiser.

E é exatamente por isso, e por todos os demais motivos do mundo, que, mais do que nunca, precisamos de lugares, espaços, plataformas, formas, fórmulas para discutir, conversar, trocar idéias, ouvir opiniões diferentes das nossas.

Tudo o que for possível para abrir canais de conversa é extremamente bem-vindo.
Com Pedro Fávaro Júnior no pedaço, então, melhor ainda.

* O autor é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes 50 Anos de Textos.



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