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TVTEC Blog com Pedro Fávaro Jr.
24
setembro 2017

Plantão pós-fim-do-mundo

Leia mais Análise

Por Pedro Fávaro Jr.

Era para ser o fim do mundo no sábado, 23 de setembro de 2017. Não foi. Estou aqui, portanto, curtindo um plantão daqueles, de domingo, como venho fazendo desde que escolhi a minha profissão, em 1975. Só os valentes – enfermeiros (as), bombeiros (as), médicos (as) entenderão. Ah, e as donas de casa que vivem no plantão-incessante.

Coisa linda a imagem. Mas é ficção: a vida segue! O mundo não acabou.

Pior: começa com o Corinthians conseguindo empatar com o São Paulo. O fim do mundo é ficha diante disso, para um palestrino…

Juro que eu havia me preparado para o TÉRMINO. Acertei com a patroa e a filharada que, caso sobrevivêssemos – coisa imponderável –, iríamos continuar juntos e agarrados, não mais como uma família urbana, mas como uma tribo.

Sim, isso mesmo! Uma tribo. Homens caçadores, mulheres provedoras e protetoras das crianças. E nossas gatas – Meg, Gorda e Gato (tenho uma gata chamada Gato, sim!) e o Ringo (o cachorro minha paixão) seriam pastores de outros bichos que tentaríamos criar, como antigamente – galinhas, patos e qualquer espécie que sobrevivesse, desde que incontaminadas.

Outra coisa bem combinada, na sexta à noite, num happy hour delicioso que fizemos todos, aberto com uma boa rodada de caipirinha, com cerveja e até Campari com limão e gelo (que só eu gosto!) e água com gás e sem gás para a parte da raça com parte do DNA abstêmio (isso vem lá dos tempos da Grécia antiga, de onde dizem originar os da minha espécie), foi acertar que viveríamos apenas daquilo que produzíssemos.

Convidei o compadre Téo Savietto para a prosa e, como ele sabe fazer vinho, sugeri que nos passasse as receitas e métodos de cultivo. Ele passou de uva, laranja, de figo e de tantas furtas outras mais, mas receita do vinho nem pensar. Menos ainda a receita de bagaceira perfumada que só a família dele sabe fazer. Ele entende de abelhas e roça como ninguém, biólogo e matemático dos bons que é. “Receita a gente vê como fica se eu e a minha raça sobrevivermos e vocês também. A gente pode aliar as tribos e começar um clã…”, e saúde! Brindamos o fim do mundo, zombando dele. Juntos eu e o compadre, desde que nos conhecemos, nunca perdemos a chance de celebrar a vida. Em qualquer circunstância. Não perderíamos essa chance única (em setembro de 2017).

***

Levada em conta toda a parafernália de raciocínios numa ocasião como essa, até que fomos bem. Não nos empanturramos. Ninguém saiu andando torto e falando em letras de forma. Bebemos socialmente, dando a vez de motoristas aos abstêmios e abstêmias. Antes de voltar para nossas casas rezamos juntos, para agradecer nossa fraternidade e colher todas as preces feitas, pedindo proteção para nós mesmos e para toda a. E fomos dormir. Acordei umas quatro vezes, à noite, com o tropel do Ringo.

É que mudei de casa e tem uma gataria danada na região onde mudei, no Jardim Danúbio. Todas as noites eles fazem um fuá tremendo no telhado da minha e de muitas outras casas. Em razão dessas serenatas felinas os cães desembestam em latimentos. Não quero falar muito isso aqui para não animar algum magistrado, como aquele de Curitiba. Vá que algum juiz lendo sobre o desandar dos latidos fique animado a autorizar o corte das cordas vocais dos bichinhos em Jundiaí também…Eu seria coautor da barbárie de certo modo…

***

Numa das vezes sai para o quintal, olhei para cima, procurando os bichanos para alvejá-los com uma espingarda de água – dessas de criança (isso mesmo, comprei uma dessas, para adestrar os bichanos e o meu cão sem machucá-los!) –, e lá estava a Lua, linda, minguante. Contemplando aquela imagem mística, naquela hora mística da madrugada pesada do fim do mundo, pensei primeiro que os gatos estariam mais irrequietos pela proximidade da hecatombe. Muita gente diz que gatos são seres ‘espirituais’, que têm ligações ilimitadas com o além e sabem das coisas antes dos donos. – Batata, o mundo acaba hoje mesmo! – resmunguei sozinho meio que entregando os pontos.

Foi por ter olhado a Lua – ah, coisa mais linda! Notei um sombreado para além da sombra da terra, um pouco mais embaixo, na beirada esquerda do queixo dela, se posso chamar assim, com o perdão dos astrônomos. “É a sombra do Nibiru”, refleti e tremi. Até chorei um pouco, porque era, seguramente, o único àquela hora em pé –exatamente 3h12 da madrugada do sábado…  Sentei no chão meditativo e, para meu espanto, em cerca de dois minutos estavam ao meu lado as minhas gatas, o cão e dois intrusos (um rabicó cinza de orelhas pontiagudas, sinistro e outro rajado bege, como um gato meu desaparecido, o Charles), todos olhando para o alto, modelados em mim… Deu até um arrepio quando vi o sósia do Charles. Nem mexi muito com ele…

– Entendi, bicharada. Ferrou mesmo, né? Bom se a gente sobreviver, vocês ficam comigo. Vocês também –, disse apontando para os intrusos que poucos minutos antes estavam zoando meu cachorro, do alto do telhado. Ficamos todos ali, assim, embasbacados, mais alguns minutos. E aí, o que vi, foi a sombra enigmática debaixo da Lua se dissipar. “Filha da mãe era só uma nuvem! A natureza prega cada peça na gente!”, refleti, levantei, e mandei água em todos os bichos que saíram pulando que nem sacis…

***

Ri de tudo e voltei para a cama meio gelado da madrugada, dei um beijo na testa de minha fiel escudeira e mulher que, instintivamente, já me tocou delicadamente com um chute rápido para o meu lado da cama. Assim, continuei pensando na Lua, maravilhosa, que aviste. E que faltavam ainda algumas horas para o sábado acabar. Foram horas lambidas, rápidas, sempre olhando para o céu…

Nada de uma segunda lua, um segundo sol… Nada de coisa alguma. Resultado – sábado meia-noite começo a rabiscar essas linhas que você acompanha aqui ou das quais, muito sabiamente, desistiu logo…

***

Portanto, mais uma vez, eu e minha família e tribo, meus amigos e o mundo todo, passamos incólumes pela patifaria. Eu venci o meu 20.º fim do mundo consecutivo, nas minhas seis décadas e pouco de existência. Penso agora nas contas do celular vencidas e nas contas que vencem amanhã, no convênio médico que está pela hora da morte de preço, tudo rotina dos que trabalham duro para pagar as contas e que têm tantas contas para pagar que os obrigam a trabalhar…

Além de toda essa conversa, tem outro detalhes: o de não poder tomar nenhuma ‘caneta’, já que estou de plantão neste domingo. Fica feio demais tomar baile no plantão. Creio que se o mundo tivesse acabado, se Nibiru tivesse nos colhido desta vez, ou fosse até o Planeta X, a maior, a suprema vantagem para jornalistas como eu, seria a de ter ficado livre do plantão de domingo! Só que não…

 



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