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TVTEC Blog com Pedro Fávaro Jr.
18
dezembro 2017

Natal de cidade grande

Leia mais Crônica

Pedro Fávaro Jr.

No fundo da casa plástica que simula residência de Andy, três rapazolas de sotaque nordestino procuram a melhor posição para a selfie, ao lado do xerife Woody Pride, do Buzz Lightyear e da linda Jessie. O fundo musical são as baladas funks dos que esqueceram como namora, de ais, ais e uis, uis e bumbuns granada… Nas calçadas, meio que alheia a tudo isso, a criançada menorzinha que passa sonha com o mundo encantado proposto pelo brilho de tantas luzes leds que piscam aceleradas nos matizes de todas as cores num encantado e encantador arco-íris. Os maiores ficam paralisados diante das lojas de eletrônicos, desejando celulares e tabletes mais velozes e potentes.

Na calçada do outro lado, uma fila imensa espera o trenzinho que passa e repassa pelas ruas do centro da cidade de onde se pode ver as vitrines mais bem decoradas e sedutoras. Ali mesmo, no trenzinho, de tempos em tempos, um gesto de carinho ou uma brincadeira do Pato Donald saído da magia televisiva direto para a vida daquela petizada, arranca aplausos delirantes, sorrisos largos e olhares com fulgores de alegria. “Dá um beijinho nele”, pede a mamãe coruja. A loirinha, rechonchuda, bem cuidada, linda de fazer chorar, beija o personagem. “É mesmo, mamãe. Agora já é o feliz Natal, né?”, pergunta, raciocinando em voz alta, resumindo o acontecido no seu raciocínio infantil. Perto da igreja, ali no museu, uma multidão forma fila para ver os presépios que todo ano disputam para ver qual é o mais bonito, o mais original, uma tradição na cidade.

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Naquela quarta-feira, um exército de papais e mamães noéis parecia ter desembarcado por aquelas bandas. Alguns vistosos, clássicos. Outros, nem tanto – magrelos, franzinos, de barbas mal postas e amareladas do tempo, maquiagens derretidas pelos mais de 30 graus de um verão que ainda, oficialmente, nem começou. Badalando seus sininhos como podiam. Uns até um pouco desanimados. E desinteressados da gurizada. “Pai, porque ele só fala com as moças”, pergunta um menino de uns nove anos ao pai que se encabula. “É assim mesmo filho. Agora ele está ocupado. Depois fala com você. A gente volta aqui…”, explica meio desconversando o pai.

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Uma multidão caminha embaixo de pilhas de pacotes dos mais variados tamanhos. Olhando de longe é até engraçado. Parece que alguns pacotes têm pernas, caminham sozinhos. As pessoas se esbarram, se desviam, trombam, derrubam e erguem pacotes, educadamente, sem ralhar umas com as outras, num universo para lá de felliniano. Alguns, mais atrevidos, até param no meio do mar de gente para arriscar uma prosa, uma conversa.  Coisa de menos de minuto, porque afinal, é preciso aproveitar o tempo, a ausência da chuva, os preços…Ah, os preços…

Um trenó alegórico, sobre um caminhão imenso que parece movido a harpa, tão alto está o som que ele produz, passa levando uma mamãe-noel que joga beijinhos aos pedestres, meio desconcertada com os gracejos que as pernas de fora provocam. Atrás do trenó, lento, uma fila imensa de carros com motoristas impacientes que começam a buzinar. Os faróis e piscalerta acesos formam um colar que se move feito bicho preguiça e decora, também, o leito da rua. Não muito longe de tudo isso, de todo esse frenesi, um garotinho de não mais de oito anos é tocado a sopapos de dentro de uma lanchonete chique. E ele só tinha entrado ali para pedir “um trocadinho”. O nome dele? Ninguém perguntou.

 



Quem já participou (2)

  • Sonia Travalim disse:

    Essa é a nossa realidade..porque não se fala mais de Deus..as pessoas têm pressa ..Nesse tempo de advento que Deus nos ajude a nos recolher em oração..sem pressa..no silencio..linda crónica..para ser refletida…

    • pfjunior disse:

      A ideia do texto, Sonia, é levar as pessoas a uma reflexão sobre o sentido maior do Natal e, quem sabe, à ação. Às vezes, por trás da esmola pedida, da mendicância, está o pedido de um abraço, de um conforto, de uma palavra de ânimo, mais do que do dinheiro. Obrigado por me ler.

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