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TVTEC Blog com Pedro Fávaro Jr.
21
dezembro 2017

Nascido para voar!

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Pedro Fávaro Jr.

— Voa, rapaz! Você nasceu pra voar!

Aquela voz martelava em mim. O que eu mais queria era voar mesmo. Se me perguntassem para onde, não saberia dizer. Se me apontassem uma direção, voaria para qualquer que fosse.

— Voa alto, voa sem medo! —, insistia a danada da voz no mais profundo de mim. Naquele ponto que às vezes nem eu mesmo alcanço, de tão misterioso, um lugar onde estaria a raiz da alma em mim. Ainda que assim sentindo no corpo mesmo, um lugar imaterial.

Medo, eu?

Meu maior medo talvez seja continuar com medo. Medo trava. Inclusive o medo de ficar com medo. Esse medo, então, encaranga a gente mais do que qualquer coisa. Alguns o apelidaram de síndrome de pânico…

Olho para o céu rendado, na tarde que sai de cena e cumprimenta a noite com pequenos raios de luz da lua, vazados em ralos buracos da imensidão das nuvens imponentes que parecem querer abocanhar a cidade inteira com a escuridão que as seguia.

— Como voar quando o céu escurece assim, cresce assim e se encorpa? Melhor a gente se recolher.

E assim foi feito.

Medo nada! Prudência.

À noite sonhei com o tempo da minha juventude. Com as peladas jogadas com os amigos nos rapadões da vila. Com o rio onde aprendi a nadar e quase me afoguei por duas vezes, sem que ninguém — a não ser meu irmão —, soubesse do fato, um segredo entre nós até hoje. Das aventuras nos bailes, especialmente de Carnaval, e dos namoros afobados, apaixonados e singelos dos dezesseis, dezessete anos. Das minhas corridas com meu cachorro Danger, solto, sem coleira nem guia, pelas ruas perto de casa que nem eram tão movimentadas ainda, mesmo as mais próximas do centro da cidade.

Sonhei com uma das poucas vezes que voei de fato, na ponte aérea São Paulo – Rio e uma outra vez para Salvador. Tendo ao lado um senhor completamente embriagado que falava alto dos perigos de desafiar a lei da gravidade. Assim, voar como passageiro, nem havia me parecido uma coisa tão libertária.

Cedo, Nara me levou de volta para o mesmo lugar onde estava quando anoiteceu e me deixou ali, voltando para seus afazeres. De certo modo, nós dois fizemos deste momento um rito. A manhã estava agradável com sol aberto e céu azul. A friagem da noite havia espantado o cachecol de nuvens negras e abafantes que antes enredara o céu.

Eu estava só.

Sentado ali.

Contemplando o gramado à minha frente e as capoeiras de árvores muito altas, na linha do horizonte.

Pensando de novo em voar.

— Voa, Nico, voa! — repetiu a voz, recordando agora meu apelido.

Fazia muito tempo que ninguém me chamava assim, a não ser Nara. De alguma maneira, a voz repetia o que ela, incansavelmente, me dizia com suas atitudes e seu amor de companheira, esposa, de mãe de meus filhos. Eu queria mesmo! Queria voar não só para atender o convite feito com insistência por aquela voz feminina, de tom macio, mas firme, mágica, insistente, que teimava comigo. Voar para, de alguma maneira, vencer o impossível em mim mesmo.

Decidi parar de querer adivinhar de onde vinha aquela voz.

Fechei os olhos.

Comecei a me imaginar correndo por aquele prado, com o sol queimando agradavelmente a pele do meu rosto. Como se eu fosse uma ave, um anjo, tentando alçar voo.

Com muito esforço fui levantando devagar os braços até onde pude, como se eles fossem asas, e comecei a fazer como fazem as garças com suas asas brancas em suas decolagens.

Tem garça que deve ser do tamanho de um anjo…

— Voa, Nico, você merece voar! —, me repetiu a voz com muita doçura, agora muito mais familiar. Então minha cadeira começou a rodar sozinha, rápida como nunca, pelo descampado. E eu – ah! eu pude romper a barreira de quarenta anos de imobilidade.

E corri!

E voei!

E me senti mais do que um anjo!

Vivo e humano com há muito não sentia.

Capaz de vencer o impossível.

Agora, continuo muito mais feliz com Nara.

A voz?

Ah, a voz é o herói que sou em mim mesmo!

 

(Escrevi em homenagem a Adelino Ozores e Eliane Lemos, do Entre Rodas & Batom. Hoje publico e estendo a homenagem aos amigos Fernando Aranha, Dudé Vocalista, a todos que atuam junto ao Peama de Jundiaí, e aos anônimos que lutam, sem medo, contra a discriminação, o preconceito, a desinformação e as barreiras visíveis e invisíveis que, mesmo nesta Era Digital, ainda são muitas)



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