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TVTEC Blog com Pedro Fávaro Jr.
05
abril 2018

BAILADO MÁGICO

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Na semana do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, minha homenagem ao amor que ama sem condições. (Ilustração: ‘A bailarina’, Juan Miró).                                                                                                                         

Pedro Fávaro Jr.                                                                                                             

Edna se encanta com Marisa. Ao lado dela, a enxerga como que a dançar lépida, esvoaçante, ágil, nos seus 14 anos, corpo de adolescente bem formado.

Menina linda, de olhos azuis, redondos, harmonizando com seus cabelos loiros e sua pele clara. E se emociona sem compreender de onde pensa que possa surgir aquela habilidade estupenda.

– Ainda se houvesse uma música –, raciocina.

Contempla a filha todo santo dia. À tarde, duas horas, a deixa no vasto gramado da casa de campo em que vivem. E ela parece se transformar sempre naquela bailarina fabulosa, mágica, lépida. Edna é doutora em Psicologia e acadêmica ainda na ativa. Mulher de cirurgião plástico de sucesso. Fracasso só no casamento. Ela compreende. Resigna-se. Enquanto cisma com aquele magnífico balé silencioso e tenta ouvir algo compatível com o ritmo que imagina construir Marisa, em movimentos estonteantemente alegres.

– Bach não dá para ser porque a alegria dele é contida, harmônica. Bobagem minha, não sei nada disso… Apenas gosto de ouvir e leio uma coisinha aqui outra ali. Não sei nada de Bach nem de música –, justifica criticamente a si mesma.

A sonhadora dentro dela, que ama o modo como vê Marisa dançar quer saber a música, mas quer mais: um palco, uma plateia para a menina, para a filha querida. É sábado e a tarde bonita pede um atrevimento. Tudo sugere o impulso da música renascentista de Vivaldi. Encaixa direitinho. “A Primavera”, sim era ela –, impossível dançar daquele modo ouvindo outra música…

Resolve trazer o aparelho de CD até o alpendre onde termina o gramado bem aparado. Puxa uma extensão. Liga. E bingo: tudo indica um acerto descomunal. Sintonia pura. Sinfonia. Marisa voa nos passos criados e desenhados no ar e agora parece olhar direto para Edna. E parece esboçar um sorriso, um lampejo de sorriso. Edna espera isso há tanto tempo como uma reação rara, positiva, um esboço de mudança na linguagem, no comportamento talvez.

Em 14 anos, Marisa nunca abriu qualquer fresta para o mundo de fora. Lembra ser essa ainda a razão pela qual Fernando, mesmo médico, havia se afastado. – Ele me amava tanto –, divaga Edna por alguns instantes ao som da música, recordando carícias e beijos que há tanto não tinha. Volta a si rapidamente. Prefere ficar fora dessa linha. Avalia e concluiu: as duas têm tudo o que precisam. E ela aceita e ama a filha como é. Mais do que isso, a ama com amor de mãe, incondicional. Ponto.

Aos poucos, a música de Vivaldi enche o lugar de cores e de uma calor mágico naqueles momentos preciosos que Edna reserva para estar com a filha. Devagar, Marisa caminha na direção da varanda, onde está a mãe. Quando percebe a aproximação da filha, ela se levanta e começa a caminhar dançando na direção da jovem que parece abrir um sorriso largo e feliz, estender os braços no ar e, ali mesmo, parece prender a mãe junto a si, no balé daquela tarde mágica de um sábado eterno.



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