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TVTEC Blog com Pedro Fávaro Jr.
14
janeiro 2019

Orfandade estranha em Jundiaí

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“Para que um ser humano precisa de pai e de mãe? Não precisa!” – a frase,  processada num isntante a partir da minha sensibilidade lobo temporal,  ressoou rápida provocando uma correnteza estranha no meu sistema límbico.

De cara zombei. “Será um ovo ambulante?” – mas o ovo, aquele mesmo que todos conhecemos, também tem mãe e pai, a senhora galinha e o senhor galo. Quem precisa de pai e mãe? Pronto. Parei na sobra, sentei numa mureta rebaixada de uma casa abandonada, ali mesmo, e fiquei olhando aqueles quatro adolescentes desaparecer aos poucos na retidão da avenida. O maior dos quatro, mais alto. numa faixa de 16 anos – aquela em que eles comem feito loucos e crescem feito tsunami –, foi o autor da fala.

A contemplação da caminhada desses dispensantes de pai e de mãe, me acalmou um pouco. Repensei. Se um adolescente não se revoltar contra alguma coisa, não questionar, então aí sim, ele está com problema. Ah, mas dispensar pai e mãe… Como assim? Qual ou quais motivos levam a um raciocínio desses? E a que caminhos pode levar uma conclusão assim, aos 14, 15, 16 anos?

Fechei os olhos. Visitei a minha infância. Os melhores momentos e os momentos difíceis, incompreendidos, misteriosos para uma criança de três, quatro, dez anos… Encontrei lá meu pai jovem, minha jovem mãe, meu irmão criança, minha irmã bebezinha… Encontrei tios, tias e minhas avós paterna e materna.

Encontrei momentos de conquistas meus, compartilhados por todos. Especialmente pelo pai e a mãe. Eu me vi em situações duras, apoiado pelo pai e mãe. E me vi crescendo, formando família e com a retaguarda dos pais, no refrigério da sombra deles, ainda que mantendo distância. Já idoso, acho mesmo que daria a vida por um cafuné da minha velhinha. Ou um café como o que ela fazia nas madrugadas em que eu saia para o trabalho. Ou pelo abraço, apertado e cortante, emocionado, de coração com coração, do meu velho.

Meu sistema límbico continua agitado. Tentando buscar uma reação honesta a essa pergunta que sibila no meu estado interno – para que a gente precisa de pai e de mãe? A razão também tem muitas respostas e a um outro tanto me possibilita a experiência de pai. Torço para esse garoto superar essa e outras etapas e, um dia, entender que somos todos – ainda que não gostemos, por causa de nossos julgamentos impiedosos –, metade pai e metade mãe, como as virtudes e vícios, qualidades e fraquezas que carrega o DNA.



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