Especial Mulheres: corredora de 75 anos relembra trajetória nas pistas
Deficiência visual e esporte adaptado transformaram a vida de Maria Aparecida dos Santos Paula

“Espero que na Vida Eterna tenha corrida”, esse é o desejo de Maria Aparecida, firme na fé, devota de Nossa Senhora e corredora profissional/Divulgação: acervo pessoal.
“Com a corrida eu me sinto livre, porque sou eu comigo mesma, eu e o vento, eu e o calor, eu e a chuva, eu e tudo. Isso é muito bom para mim”. Essa é a fala de Maria Aparecida, a corredora de 75 anos que hoje conta à TVTEC Jundiaí sua história: como superou as dificuldades e discriminações que passou por ser uma mulher negra e como o esporte adaptado entrou em sua vida. Mostrou que a deficiência visual não é barreira e sim recomeço.
História
Nascida na cidade de Barretos, interior paulista, Maria Aparecida viveu um início de infância tranquilo, brincando livre pelas ruas, porém quando completou 10 anos de idade perdeu os pais e precisou trabalhar. Se mudou para Jundiaí, onde foi empregada doméstica nas casas das famílias ricas da cidade.
Contou que como doméstica e mulher negra precisava manter obediência absoluta aos patrões para não sofrer advertências: “Eu sofri muito como doméstica e como uma mulher negra também. Um exemplo é que quando os patrões se reuniam para almoçar, eu tinha a obrigação de servir eles primeiro, para somente depois poder comer.”
Casada há 57 anos com José Reinaldo, com quem teve duas filhas. Começou no esporte quando elas ainda eram pequenas, contou que as deixava na escola e ia de bicicleta ao Centro Esportivo José Pedro Raymundo, na Vila Rio Branco, onde praticava atividades físicas.
Logo em seguida, descobriu uma condição que danificou os olhos e que causou a perda de visão, chamada atrofia do nervo óptico: “No dia que descobri senti uma dor muito forte no olho direito, não enxergo mais com ele, mas no esquerdo tenho baixa visão. Fiquei na esperança de voltar a enxergar, mas com o olho direito eu perdi totalmente a capacidade de ver”, explicou.

Maria Aparecida e o marido José Reinaldo
Recomeço
Após o diagnóstico, uma amiga a apresentou ao PEAMA Jundiaí (Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas) que acolheu Maria Aparecida e a incentivou a se tornar uma atleta profissional. Inicialmente experimentou a natação, mas foi na corrida que se encontrou.
Desde que se tornou parte do time de atletismo do PEAMA, a corredora conquistou muitos prêmios em diversas competições como, Jogos Abertos do Interior, Jogos Regionais e Jogos Brasileiros: “Participei de muita coisa pelo PEAMA e viajava muito, cada corrida era uma história diferente.”, relembrou.
Atualmente está afastada do PEAMA devido a complicações de saúde, mas mesmo assim se mantém na ativa, corre pelas avenidas da cidade com o apoio da filha e ainda participa de algumas competições: “Abaixo de Deus e da minha família, a corrida é tudo para mim. Eu sou uma pessoa que faz as coisas na raça, mesmo doente, ainda participo de corridas que a minha filha me inscreve.”, disse a atleta.

Luta feminina
Quando questionada sobre os desafios e orgulho em ser mulher, a atleta ressaltou a luta feminina e a conquista das mulheres pelos próprios espaços.
“Os principais desafios em ser mulher é ser um ser humano feminino, além da nossa luta para vencer na vida e alcançar os próprios objetivos. Me orgulho da nossa liberdade e de tudo o que as mulheres conquistaram com muita batalha, cada uma o seu espaço, o seu trabalho e a sua profissão. Acho lindo isso”, disse.
Ao final deixou uma mensagem de incentivo às mulheres: “A gente não pode desistir de nada na vida, enquanto estamos aqui na terra, respirando o ar, temos que fazer as coisas que a gente gosta”, concluiu.
Redação TVTEC


